quinta-feira, 16 de julho de 2015

Prédios históricos: Associação Comercial de São Paulo e o Colar Carlos de Souza Nazareth

A Associação Comercial de São Paulo (ACSP) é uma entidade de classe que foi fundada em 1894 por um grupo de empresários paulistas liderados por Proost Rodovalho. É considerada a voz do empreendedor paulistano.
Segundo o próprio site, a associação conta atualmente com 15 distritais espalhadas pela cidade responsáveis por manter os associados informados sobre duas atuações e serviços.

Inicialmente com o nome de Associação Comercial e Agrícola de São Paulo, ficou muitos anos, contudo, sem sede própria.

A ideia de construir uma sede surgiu em 1936, na gestão do diretor da entidade Alfredo Aranha de Miranda que, ao ver que várias capitais brasileiras já possuíam sedes para suas associações comerciais, encaminhou, em 1936 um pedido à Assembléia Legislativa de São Paulo. Esta propôs a utilização de um terreno que havia sido concedido à Fazenda para instalação do Serviço Técnico do Café, mas que estava desocupado.

E foi assim que, em 25 de janeiro de 1939 o futuro prédio já era notícia de jornais que informavam, com pompa, o lançamento de sua pedra fundamental. A imagem mostrada naquele dia ainda era a do projeto, vencedor dentre três apresentados.
O prédio da sede da Associação Comercial de São Paulo conta 15 andares (era bem alto para a época) e está localizado no coração de São Paulo, na Rua Boa Vista nº 51, ao lado do viaduto homônimo, de onde também é facilmente avistado.
Dos 15 andares, 13 estão abaixo do nível do Viaduto Boa Vista e 12 acima. A execução das obras ficou a cargo dos engenheiros Lindenberg, Alves & Assumpção.

Prédio da Associação Comercial de São Paulo
Detalhe da fachada
Prédio visto a partir do Viaduto Boa Vista
Rua Boa Vista e detalhe do Impostômetro
Detalhe da fachada de entrada do prédio
Identificação do prédio com brasão na entrada
Detalhe do brasão da ACSP
Na fachada lateral do edifício, voltada para o Viaduto, está seu detalhe mais conhecido. Lá funciona um painel eletrônico que informa em tempo real quanto os brasileiros pagam de impostos, segundo a segundo e é ponto de parada dos transeuntes, sempre admirados com os números.


Painel eletrônico - o Impostômetro da ACSP

Os números não param. No momento da publicação deste post
o valor dos impostos pagos no país já superou um trilhão e reais.

O Impostômetro e sua metodologia

O Impostômetro foi instalado em 20 e abril de 2005 e funciona ininterruptamente desde então.

“O Impostômetro considera todos os valores arrecadados pelas três esferas de governo a título de tributos: impostos, taxas e contribuições, incluindo as multas, juros e correção monetária”.

“Para o levantamento das arrecadações federais a base de dados utilizada é a Receita Federal Brasil, Secretaria do Tesouro Nacional, Caixa Econômica Federal, Tribunal de Contas da União, e IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. As receitas dos estados e do Distrito Federal são apuradas com base nos dados do CONFAZ – Conselho Nacional de Política Fazendária, das Secretarias Estaduais de Fazenda, Tribunais de Contas dos Estados e Secretaria do Tesouro Nacional do Ministério da Fazenda. As arrecadações municipais são obtidas através dos dados da Secretaria do Tesouro Nacional, dos municípios que divulgam seus números em atenção à Lei de Responsabilidade Fiscal, dos Tribunais de Contas dos Estados”.


Colar Carlos de Souza Nazareth

Desde o ano de 2002, o Conselho Cívico e Cultural da Associação Comercial de São Paulo incluiu a instituição de uma honraria destinada a homenagear pessoas físicas ou jurídicas que se destaquem pela prática de ações cívicas relevantes para o bem da sociedade.
Por unanimidade, deliberou-se que a honraria seria na forma de Colar e levaria o nome de Carlos de Souza Nazareth, líder paulista histórico, que, aos 33 anos de idade, foi presidente da Associação Comercial de São Paulo, justamente quando eclodiu o Movimento Constitucionalista de 1932. A medalha é entregue no dia 16 de julho, Dia do Comerciante.

Neste ano de 2015 a ACSP homenageou os 83 anos dos heróis da Revolução de 1932 outorgando o colar a Mario Fonseca Ventura, coronel da Polícia Militar e presidente da Sociedade de Veteranos de 32/MMDC, ao município de Buri, “cidade mártir de 32” e a Fernando Capez, presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo. A solenidade ocorreu no interior do Monumento-Mausoléu aos heróis de 32 e as fotos que vi mostram um colar amarelo com bordas vermelhas e uma medalha dourada de quatro pontas com um busto central, numa base circular vermelha.

Carlos de Souza Nazareth participou ativamente durante todo período da Revolução Constitucionalista de 32, propiciando, pela sua eficiência e valor pessoal, um excelente sistema de suprimentos e apoio logístico ao Exército Constitucionalista, fato que auxiliou na resistência aos ataques governistas.

Com a derrota militar paulista, Carlos de Souza Nazareth foi preso e deportado para Portugal como os demais líderes da Revolução. Retornou ao Brasil com a volta do regime constitucional e foi eleito deputado da Assembléia Legislativa de São Paulo, cargo que ocupou até o retorno da ditadura de Vargas em 1937. Carlos de Souza Nazareth faleceu em 28 de março de 1951, aos 52 anos de idade.

Falamos de um prédio antigo e simples mas repleto de história e vida. Um símbolo de São Paulo.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Obelisco do Ibirapuera. Um Monumento-Mausoléu repleto de simbolismos

O Monumento Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 1932, também conhecido como Obelisco do Ibirapuera, é um monumento funerário em homenagem aos Heróis de 32 projetado pelo arquiteto e escultor Galileo Emendabili.

Monumento-Mausoléu ao Soldado Consttitucionalista de 32
Antes de fazer uma visita e admirar toda a grandeza e simbolismos presentes nesse obelisco e mausoléu, é preciso saber exatamente o que representou a Revolução Constitucionalista de 1932 para a história de São Paulo e do Brasil.

A Revolução Constitucionalista de 1932 foi o movimento armado ocorrido no Estado de São Paulo contra a política centralizadora de Getúlio Vargas, que tinha por objetivo a defesa dos direitos constitucionais e a promulgação de uma nova constituição para o Brasil, já que a de 1891 havia sido suprimida pela gestão ditatorial após o golpe de 1930.

Foi a primeira grande revolta contra o governo de Getúlio Vargas e o último grande conflito armado ocorrido no Brasil. Foram 87 dias de combates em todo o estado de São Paulo com um número estimado de mortes entre os paulistas acima de 600 e um sem-número de baixas civis. Do lado do Governo nunca foram divulgados o número de combatentes mortos.

Embora com a derrota militar em 2 de outubro de 1932 ocorreu a vitória dos ideais, com a conquista da nova constituição, a Constituição de 1934 e restauração do Estado de Direito no país.

Você pode visitar o post que explica com detalhes a Revolução visitando http://blogdatesp.blogspot.com.br/2015/07/revolucao-constitucionalista-de-1932-e.html

Conhecendo o Monumento Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 1932

O Monumento-Mausoléu é um projeto do escultor ítalo-brasileiro Galileo Ugo Emendabili, que chegou ao Brasil em 1923 aos 34 anos de idade fugindo do regime fascista em seu país, indo para o Liceu de Artes e Ofícios. Emendabili era artista desde sua infância, época em que esculpia em madeira com faca de cozinha.

Quando houve o concurso em 1934 para a execução do monumento Galileo Emendabili e Mario Edgard Pucci apresentaram à Comissão Internacional Julgadora dois projetos, que foram contemplados com o primeiro e segundo lugar. O que se sagrou vencedor por unanimidade era denominado simplesmente: “32”. A maquete que obteve o segundo lugar tinha o nome de “Constituição”.

A obra, em puro mármore travertino, só pôde ocorrer após a era Vargas, tendo início em 1947, sendo executada pelo engenheiro Ulrich Edler.

Em 1954 foram depositados no Mausoléu os primeiros restos mortais dos quatro primeiros manifestantes mortos em 23 de maio Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (M.M.D.C.).

O Monumento foi inaugurado parcialmente em 9 de julho de 1955 por ocasião das comemorações do IV Centenário da cidade e finalizado no ano de 1970.

Visitação e como chegar ao Obelisco

Após grande restauro e um período de portas fechadas à população de 12 anos, o Obelisco foi reaberto por completo em 9 de dezembro de 2014 e, desde então, está aberto para visitação gratuita diariamente. Ele preserva a memória de São Paulo cuja Revolução se tornou um dos maiores símbolos de resistência política e da luta pela autonomia.

Vamos à visita dessa obra, onde tudo é perfeito e repleto de simbologia e vida.

A primeira observação, e a única negativa que vou fazer, refere-se à dificuldade de acesso ao Mausoléu. Se você chegar a pé, de ônibus ou carro particular, o problema será o mesmo. Em frente ao Obelisco não há passarela, semáforo ou mesmo faixa de pedestres embora haja uma guia rebaixada, não sei bem para que. O trânsito é intenso constantemente e como a avenida é de mão única, com a entrada do Monumento à esquerda, você só poderá parar à direita. As opções são atravessar na passagem de pedestres muito antes do Monumento, em frente aos portões 1 e 2 do Parque do Ibirapuera. O portão 10 é mais próximo do Obelisco, mas não é permitida a entrada de veículos. Em frente à Assembléia Legislativa há farol e passagem de pedestres, mas só interessa se você estiver chegando por traz do Obelisco, no sentido bairro-cidade. As dificuldades depois são as mesmas. Após atravessar e caminhar por calçadas irregulares e mal conservadas você precisa atravessar a Avenida Pedro Álvares Cabral ou a passagem perigosa entre as praças Aldo Chioratto e Ibrahim Nobre.

Então, vamos mais próximos, na altura dos portões 3 e 4, bem em frente ao Monumento. Nada! Nesse portão não é permitida a entrada de veículos, apenas a saída. Se você conseguiu entrar por fim no Parque do Ibirapuera, que é o melhor local para estacionar, agora chegará a vez da missão quase revolucionária de atravessar a Avenida Pedro Álvares Cabral para chegar ao Obelisco, com as dificuldades que citei no início. O meio mais utilizado (e perigoso), que fiz uma vez, foi atravessar, e correndo, a avenida na altura do Obelisco (aqui ela ainda tem uma ilha separando uma pista para os ônibus) num pequeno espaço de tempo após o fechamento do farol na altura do Monumento às Bandeiras. Complicado!

Pedestres tentando atravessar a avenida
A segunda opção, que é a minha sugestão, é procurar ajuda de um dos policiais de trânsito que costumam ter um carro por lá ou algum policial militar do Obelisco. São todos gentis e interrompem o trânsito para a população, pois sabem que não há possibilidade segura sem eles.

Esse monumento ficou fechado à visitação pública por 12 anos para realização de obras de controle de infiltrações e modernização das instalações, que estavam muito comprometidas. No dia 9 de dezembro finalmente o Monumento “novinho em folha” foi entregue ao público e agora vou contar sobre a visita que fiz dois dias após a reabertura e dar algumas dicas para aproveitar melhor essa visita.

Agora vamos visitar e nos admirar

Primeiro quero dizer que fui visitar o Obelisco no segundo dia após sua reabertura em 9 de dezembro de 2014 e que, muito de meu aprendizado sobre seu significado e beleza devo ao Sr. William Mascarenhas Worth, Comandante do Estado Maior do Exército Constitucionalista, que lá estava dividindo com cada visitante um pouco da história e do importante papel da Revolução Paulista de 1932, com um orgulho contagiante.

Quando à guarda do Mausoléu, esta é feita por solícitos policiais militares.

O Monumento-Mausoléu

O Monumento-Mausoléu é um marco de São Paulo e homenageia a Revolução Constitucionalista de 1932 e seus heróis. É o monumento mais alto da cidade.

Antes de entrar admire a obra como um todo. O Monumento é na verdade um complexo arquitetônico formado pelo Obelisco, pela Praça que o circunda e pela Cripta.

Todo ele foi concebido com base em relações numéricas, uma mística relacionada à data do início da revolução: 9/7/1932 a começar pela área onde está implantado, de 1932 metros quadrados.

A obra representa uma espada com quatro faces e a ponta apontando para o céu, representada pelo Obelisco. A espada está cravada no coração da “mãe terra paulista” que abriga os filhos mortos, os combatentes. A praça e representa o guarda-mão da Espada Flamejante e a cripta, subterrânea, representa a base da espada.

É um “monumento aos que partiram e um mausoléu aos que não voltaram”.

Visite primeiro o Mausoléu e por fim suba ao lado do monumento até chegar ao Obelisco. Este é o melhor modo de seguir a seqüência da história.

Entendendo o Mausoléu

O Monumento é um mausoléu, que foi construído para reverenciar e abrigar os restos mortais de 713 ex-combatentes da Revolução Constitucionalista de 32 e também dos primeiro quatro estudantes mortos na manifestação que deflagrou a revolução (veja em M.M.D.C. e o 23 de maio em (www.blogdatesp.blogspot.com.br).

É uma “peça viva”, pois abriga e ainda recebe cinzas e ossos humanos.

A cripta

Após descer 9 degraus iremos à Cripta , cuja construção está dividida em três setores com três grupos de três arcos a partir da entrada. Os portões de ferro caracteristicamente se abrem para fora, para levar os ideais dos que tombaram a todo o povo.

Logo na entrada você verá três arcos, que remetem às arcadas da Faculdade de Direito do Lardo São Francisco, onde houve intensa participação dos estudantes que foram inclusive aos campos de combate. Lê-se inscrito acima “Viveram pouco para morrer bem. Morreram jovens para viver sempre”, texto de autoria de Machado Florence. Passando pelos portões de ferro você estará no primeiro setor da Cripta, com ampla visão de todo o interior e onde se encontram os serviços como os sanitários.

Vista da entrada do Monumento. Os portões abrem para fora.  
A partir do segundo setor, passando pelo segundo grupo de três arcos você já estará em solo sagrado, na Câmara de Reflexão. Esse túnel de acesso ao terceiro setor da Cripta tem, nas paredes laterais, três arcos de cada lado, compondo 6 arcos cegos ao todo. No arco central do lado esquerdo está inscrita a “Oração Ante a Trincheira”, poema de Guilherme de Almeida. No arco central à direita está uma reprodução da carta do governador Mourão dirigida à corte portuguesa informando do despojamento, coragem, e da iniciativa dos paulistas para se armarem com seus recursos para a luta de 1932. Os quatro arcos restantes envolvem dois columbários de cada lado, cada qual com 18 lóculos (note que 1 + 8 = 9, o número da mística do Mausoléu).

É um ambiente mais sóbrio, cujo objetivo é levar o visitante a refletir sobre as cinzas dos mortos lá depositadas. 

Poema de Guilherme de Almeida em arco central de mármore

Columbário no segundo setor da Cripta
 A partir do segundo setor, passando pelo segundo grupo de três arcos você já estará em solo sagrado, na Câmara de Reflexão. Esse túnel de acesso ao terceiro setor da Cripta tem, nas paredes laterais, três arcos de cada lado, compondo 6 arcos cegos ao todo. No arco central do lado esquerdo está inscrita a “Oração Ante a Trincheira”, poema de Guilherme de Almeida. No arco central à direita está uma reprodução da carta do governador Mourão dirigida à corte portuguesa informando do despojamento, coragem, e da iniciativa dos paulistas para se armarem com seus recursos para a luta de 1932. Os quatro arcos restantes envolvem dois columbários de cada lado, cada qual com 18 lóculos (note que 1 + 8 = 9, o número da mística do Mausoléu).

É um ambiente mais sóbrio, cujo objetivo é levar o visitante a refletir sobre as cinzas dos mortos lá depositadas.

Pelos arcos é possível ver o terceiro setor da Cripta

Aqui é local de reflexão e admiração
No terceiro e último setor da Cripta, o Templo, mais largo, caminhe no sentido horário, pois as três capelas existentes fornecem uma seqüência de informações melhor.

O Templo é atingido após passar pela terceira tríade de arcos ritualísticos. Passa-se assim por 9 “sagrados arcos” até o acesso aos heróis nos columbários.

O Templo é plano e quadrangular e divide-se em quatro câmaras cúbicas separados pelos dois braços da cruz imaginária.
Ali está a maioria dos columbários, em número de 16 após a reabertura, todos iguais. O número de columbários foi ampliado em relação à construção original devido à existência de combatentes ainda vivos e cinzas que seguem sendo enviadas. Observei columbários compostos por 45 lóculos e columbários com outro número de lóculos. Cada qual está identificado, em sua maioria com o nome do herói e a data em que as cinzas chegaram ao Mausoléu e há columbários ainda vazios.

As únicas exceções são os túmulos de Guilherme de Almeida, o “Poeta de 32” e de Ibrahim Nobre, o “Tribuno de 32” sepultados no Mausoléu em cortejo fúnebre e tem lápide no solo.

São restos mortais de 713 ex-combatentes depositados ali, porém números diferentes são informados. 

Em outro post falarei sobre os combatentes/heróis que lá estão.

A iluminação indireta e é outro detalhe com simbolismo. Ela vem das paredes ou do piso junto às paredes, como que brotando e significando que “a luz dos mortos provém da terra”.

"A luz dos mortos vem da terra"

Os braços da Cruz imaginária que forma o Templo se entrecruzam no centro dele, bem na base do Obelisco. Lá se encontra a escultura do “Herói Jacente”, em mármore de Carrara, que figura como o guardião do Mausoléu. Nele repousam os restos mortais dos quatro primeiros heróis constitucionalistas (M.M.D.C.) e do agricultor Paulo Virgínio, herói da cidade de Cunha, onde ocorreu importante combate. As tropas de Getúlio Vargas ao saberem que havia soldados constitucionalistas nessa cidade forçaram Paulo Virgínio a entregar o esconderijo, torturando-o e obrigando-o a abrir sua própria sepultura, mas antes de ser assassinado ele ainda teria gritado "Morro, mas sou paulista e São Paulo vence". Também há uma bandeira de São Paulo junto com eles.

Detalhe: visto por dentro o Obelisco é um projétil do “canhão cívico” e você não pode deixar de conferir a imagem da bandeira de São Paulo ao alto, dentro da ogiva do Obelisco, que o herói deitado vê. Sente no piso ou abaixe-se na altura da cabeça da escultura e olhe para cima. É perfeito!

A simbologia do Herói Jacente refere que “O herói está circundado pelo exército constitucionalista. Eles não estão mortos. Eles apenas repousam. Se houver uma violação à Constituição Brasileira, se houver tirania, o herói jacente levanta, acorda os soldados paulistas, usa o canhão e lutam de novo por São Paulo”. 

Com o o Comandante do Estado Maior do Exército Constitucionalista,
 Sr. William Worth
Os olhos entreabertos do Herói Jacente estão atentos a tudo

À esquerda soldados usam o uniforme cáqui e capacete de 1932

O Herói Jacente olha para a bandeira de São Paulo
 No Templo há três capelas com três mosaicos concebidos por Galileo Emendabili e executados pelo Studio Padan, de Veneza.

Capela com o mosaico "Natividade"
Detalhe do mosaico que recorda a partida e o tombamento dos soldados
Altar remete à Ressurreição de Cristo e da Constituição Brasileira

No solo em frente ao altar
Na parede Norte, à esquerda de quem entra, está o mosaico “Natividade”. Representa o nascimento do menino Jesus e a fundação de São Paulo.

Na parede Oeste está o segundo altar com o mosaico “Martírio”. Representa a crucificação de Cristo e o tombamento do herói constitucionalista no campo de batalha.

No terceiro mosaico, na parede sul, na cabeceira do Soldado Jacente, está representada a ressurreição e triunfo de Cristo e a analogia com o anúncio do advento da Constituição de 1934, anunciando o ressurgir do país sob a égide da Lei.

O Obelisco

Em seus 72 metros o Obelisco tem quatro faces, cada qual voltada para um ponto cardeal. Em cada uma delas encontram-se quatro figuras em alto-relevo no terço inferior do Obelisco que aludem à luta militar da Revolução de 1932 e aos feitos dos bandeirantes. Entre os relevos, estão inscritos versos de Guilherme de Almeida, difíceis de ler pois você tem que dar toda a volta, então transcrevo aqui:

AOS ÉPICOS DE JULHO DE 32 QUE, FIÉIS CUMPRIDORES
DE SAGRADA PROMESSA FEITA A SEUS MAIORES
OS QUE HOUVERAM AS TERRAS E AS
GENTES POR SUA FORÇA E FÉ
NA LEI PUSERAM SUA FORÇA
E EM SÃO PAULO, SUA FÉ.

O Obelisco possui dois portais em bronze, com chave, que foram inauguradas pelo presidente da República Juscelino Kubitschek em 1958.

A primeira porta é a Porta da Vida, está voltada para o sol nascente e mostra em baixo-relevos todo o esforço do trabalho de São Paulo. A porta oposta, voltada para o ocidente, é a Porta da Glória e têm trabalhos que representam o sacrifício paulista como as mutilações, o tombamento nas trincheiras, as contribuições civis de dinheiro e alianças em ouro para manter as tropas constitucionalistas em combate. Essas portas são fechadas diariamente.

Dentro do Obelisco há um parapeito circular de onde você pode olhar para baixo e avistas o Soldado Jacente.

Visitantes conhecem o Obelisco do Ibirapuera
A Porta da Glória
Detalhe talhado no bronze sobre a doação de ouro
Anel pertencente ao Sr. William Worth.
Fornecido na campanha Ouro para o Bem de São Paulo.
Portais abertos.
Pelo parapeito circular é visto o Herói Jacente.
Detalhes da incrível simbologia numerológica do Monumento 

As relações numéricas baseadas no número 9 e na data 9/7/1932, início da Revolução Constitucionalista, constituem a assinatura matemática de Galileo Emendabili. Vejam alguns números:
- A área ocupada pelo Monumento Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 1932 é de 1932 metros quadrados
- Para adentar ao Monumento existem 9 degraus
- O Monumento tem 81 metros a partir do fim da Cripta até o topo do Obelisco (8+1 = 9 e raiz quadrada de 81 = 9)
- A diferença das alturas 81 – 72 = 9
- Do piso externo ao topo do Obelisco a altura é 72 metros (7 + 2 = 9)
- A base do Mausoléu tem 9 metros de largura, a base externa tem 7 metros e a altura do piso até a abóbada central onde está a escultura do Herói Jacente é de 32 metros
- No segundo setor da Cripta há dois columbários com 18 lóculos (8 + 1 =9)
- Os columbários idealizados por Emendabili são compostos por 45 lóculos (4+5=9), cada qual abrigando restos mortais de combatentes
- A Câmara de Reflexão, setor intermediário da cripta, tem 32 metros de comprimento por 9 metros de largura, cuidadosamente concebida, com 288 m² (2+8+8=18 e 1+8=9) de área
- A ogiva circular dentro do Obelisco tem 9 metros de diâmetro
- Para a obra foram utilizadas 360 toneladas de ferro (3 + 6 = 9); 36.000 m³ de terra (3 + 6 = 9)
- A Cripta foi adornada com 135 m² (1+3+5=9) de mosaicos venezianos, executados sob o desenho e as cores de Galileo Emendabili
- A área total da superfície externa do Obelisco corresponde a 2304 m² (2+3+0+4=9)
- Cada face o Obelisco tem área de superfície de 576 m² (5+7+6= 18, e 1+8=9, e 18/2=9).

São nove os degraus para alcançar a entrada do Monumento

Informações sobre o Monumento

O Monumento Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 1932 é tombado pelos conselhos estadual e municipal de preservação de patrimônio histórico.

A direção do monumento-mausoléu foi confiada a partir de 9 de julho de 1991, em caráter perpétuo, à Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Endereço: Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Vila Mariana– São Paulo.
Horário de funcionamento: de terça a domingo, das 10h às 16h.
Entrada gratuita.
Visita guiada (maravilhosa!) mensal
Para mais informações acesse o site da Sociedade Veteranos de 32 ou o telefone (11) 5086-1144/ 3105-8541.

O “32” é o segundo maior memorial do mundo em área construída. Pode ser visto de quase todos os pontos do Parque do Ibirapuera, bem como da Avenida 23 de maio, nome dado em homenagem à Revolução.

Terminarei este post com o poema de Guilherme de Almeida intitulado “Nossa Bandeira”.

Bandeira da minha terra,
bandeira das treze listras:
são treze lanças de guerra
cercando o chão dos Paulistas!


Prece alternada, responso
entre a cor branca e a cor preta:
velas de Martim Afonso,
sotaina do Padre Anchieta!


Bandeira de Bandeirantes,
branca e rota de tal sorte,
que entre os rasgões tremulantes
mostrou a sombra da morte.


Riscos negros sobre a prata:
são como o rastro sombrio
que na água deixava a chata
das Monções, subindo o rio.

Página branca pautada
Por Deus numa hora suprema,
para que, um dia, uma espada
sobre ela escrevesse um poema:

Poema do nosso orgulho
(eu vibro quando me lembro)
que vai de nove de julho
a vinte e oito de setembro!


Mapa de pátria guerreira
traçado pela Vitória:
cada listra é uma trincheira;
Cada trincheira é uma glória!


Tiras retas, firmes:
quando o inimigo surge à frente,
são barras de aço guardando
nossa terra e nossa gente.


São os dois rápidos brilhos
do trem de ferro que passa:
faixa negra dos seus trilhos,
faixa branca da fumaça.


Fuligem das oficinas;
cal que as cidades empoa;
fumo negro das usinas
estirado na garoa!


Linhas que avançam; há nelas,
Correndo num mesmo fito,
O impulso das paralelas
Que procuram o infinito.


É desfile de operários;
É o cafezal alinhado;
São filas de voluntários;
São sulcos do nosso arado!


Bandeira que é o nosso espelho!
Bandeira que é a nossa pista!
Que traz no topo vermelho,
O coração do Paulista!

domingo, 5 de julho de 2015

Monumento ao Ibrahim Nobre, o "Tribuno da Revolução Constitucionalista de 32"

Bem no Parque do Ibirapuera, num belo gramado em frente ao “Monumento-Mausoléu ao Soldado Constitucionalista”, está o Monumento ao Tribuno da Revolução Constitucionalista, Ibrahim Nobre.

O monumento, de autoria de Luiz Morrone, é feito em bronze e mede 2,90m x 1,10m x 0,70m, com um pedestal de granito de 2,00m x 2,00m x 2,40m e foi encomendado por uma comissão formada por advogados, promotores e juízes.
A estátua foi inaugurada em julho de 1972 por ocasião das comemorações do quadragésimo aniversario do Movimento Constitucionalista de 1932, dois anos após a morte de Ibrahim Nobre.
 
Monumento a Ibrahim Nobre, de Luiz Morrone
Ibrahim Nobre, o Tribuno da Revolução Constitucionalista

Vista lateral, sob o pedestal de granito
Observar detalhe da postura de orador
Placa à direita do monumento
Placa sobre o exílio, na face esquerda do monumento
 

Ibrahim Nobre parece discursar com o Mausoléu/Obelisco

 O detalhe do monumento

 No interior do pedestal há um detalhe pouco conhecido: punhados de terra de diferentes localidades do estado de São Paulo, colhidas das trincheiras do Vale do Paraíba, da Serra da Mantiqueira, de Cunha, de Buri, das praias do litoral paulista e de outros sítios, foram colocados lá, significando que o homenageado e a “pátria paulista” nunca estarão separados.

O escultor Luiz Morrone nasceu em São Paulo em 1906 e foi um profissional que possui muitas obras pela cidade, criando centenas de estátuas. Faleceu em 1998. Era pai do ator de cinema e televisão Laerte Morrone.

Monumento em discuso eterno com os combatentes da Revolução de 32
Base de granito guarda terra de vários locais de São Paulo

Ibrahim Nobre

O jurista e orador Ibrahim de Almeida Nobre ficou eternizado na história de São Paulo como o “Tribuno da da Revolução Constitucionalista der 1932". Paulistano, nasceu em 19 de fevereiro de 1888 formando-se pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco de São Paulo.

Foi promotor de justiça em Salesópolis, delegado de polícia nas cidades de Santos e São Paulo e sua admiração pelas ciências médicas levou-o a ser auxiliar nos cuidados de controle da população dizimada pela varíola. 
Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Em 1927 tornou-se um brilhante promotor público em São Paulo.

No ano de 1932 foi sensibilizado pela Revolução Constitucionalista e seus dons de orador colocaram-no nos comícios públicos em favor da defesa de São Paulo. Ibrahim Nobre fazia discursos acalorados e motivadores de incentivo à população para aderirem ao movimento constitucionalista e, na Força Pública (atual polícia Militar), conclamando a tropa para aderir à revolta. Era o tribuno do povo.

Compôs um famoso poema-manifesto endereçado aos paulistas chamado "Minha Terra, Minha Pobre Terra", que foi publicado no jornal A Gazeta em 25 de janeiro de 1931 e reeditado também pela Gazeta num livreto de oito páginas em 1957, nas comemorações de 25 anos da Revolução. Foi seu trabalho escrito mais significante e representava o sentimento cívico de toda uma população.

Quando ocorreu a luta armada de 1932,  Ibrahim Nobre ingressou como soldado raso num batalhão para combater as tropas federais na Frente Sul, terminando preso no Rio de Janeiro. Foi exilado em Portugal e após ser anistiado em 1934 retornou ao Brasil. Seguiu seu trabalho de promotor público, ainda com dificuldades políticas, passando a Subprocurador Geral da Justiça até sua aposentadoria, em 1949.

Várias entidades culturais disputavam sua presença em eventos.
Foi condecorado, no Instituto de Engenharia, com a medalha do "Mérito Bandeirante".
Ocupou a cadeira nº 21 da Academia Paulista de Letras, cujo patrono é Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, em 1960.
Recebeu o título de Cidadão Emérito do Estado de São Paulo pela Câmara Municipal de São Paulo em 1961.

Faleceu na capital em oito de abril de 1970 e foi sepultado no cemitério de São Paulo com sua velha beca de Promotor, conforme desejo prévio.

Por ocasião das comemorações do 45º aniversário da Revolução Constitucionalista, em 1977 suas cinzas foram transladadas em cortejo fúnebre para o Monumento-Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 32, onde descansa junto aos demais combatentes e observa a todos, na forma de escultura.

Vista da Praça Ibrahim Nobre, no Ibirapuera
.
Ibrahim Nobre descansa no Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 32
Ibrahim Nobre, um herói no meio de tantos, que se destacou pela oratória que agitou e emocionou São Paulo levando à participação de muitos na defesa dos ideais constitucionalistas. O eterno “Tribuno da Revolução Constitucionalista”. 
Exemplar de museu

Trechos de Minha Terra! Minha Pobre Terra!

Início: "És paulista? Ah! Então tu me compreendes!
Trazes como eu o luto em tua alma e lágrimas de fel no coração.
Ferve em teu peito a cólera sagrada, de quem recebe na face a bofetada, o insulto, a vilania, a humilhação”.

Trecho intermediário: “Minha Terra! Minha pobre Terra! Alma desfeita dessa mesma Brasilidade, e que deste, numa permanente renúncia, as mãos, o ouro, o sangue!”

Trecho final: 
“Que não há lar livre, em terra escrava!
Meus patrícios!
Olha ! Lá fora estão passando os funerais da nossa geração e do nosso pudor!
E então, Homens!”

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Revolução Constitucionalista de 1932 e o feriado de 9 de julho

Dia 9 de julho é o feriado mais importante do estado de São Paulo e todos os anos ouve-se a mesma pergunta: é dia do que mesmo?

Claro, não todos, mas principalmente as gerações mais jovens freqüentemente referem ter estudado na escola, porém recordam-se parcialmente do que aprenderam.

Tentarei neste post contar essa parte tão importante e nobre de nossa história de forma breve para que possa ser recordada por inteiro por vocês. Espero que gostem e contem para seus conhecidos e quem sabe esse feriado venha a ter para as futuras gerações a mesma importância que teve para quem nos antecedeu.

No dia 9 de julho comemora-se o aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932. É nessa data que se recorda o dia em que povo paulista pegou em armas para lutar contra o governo ditatorial brasileiro de Getúlio Vargas, pedindo o retorno do regime democrático no País e o restabelecimento da Constituição, que havia sido anulada por ele.

Mas, como se chegou a esse conflito armado que exterminou mais de 900 vidas paulistas em pleno século XX?

Tudo aconteceu porque, em 1930, Getúlio Vargas havia tomado o poder do Brasil através de um golpe militar e instaurado uma ditadura (Governo Provisório 1930-34). Ele perdera as eleições para o governador paulista Júlio Prestes, que era o candidato indicado como sucessor do presidente anterior, Washington Luís. Este rompera a tradicional aliança que intercalava um governante paulista com um mineiro, ao indicar novamente um paulista. Vargas, inconformado com o fracasso, procurou o apoio dos estados de Minas Gerais, Rio Grande de Sul e Paraíba e formaram a Aliança Libertadora para impedir que o candidato eleito tomasse posse por meio então do golpe militar.

Com amplos poderes, Vargas fechou o Congresso Nacional, anulou a Constituição de 1891 e estabeleceu um poder federal centralizado, depondo os governadores de estado e nomeando interventores despreparados. Em São Paulo o interventor foi o coronel pernambucano João Alberto.

São Paulo era o principal e mais rico estado da Federação e gozava de autonomia política e econômica, esta, graças à abundante produção de café desde o século XVIII.

O erro político de Vargas tentando subjugar São Paulo foi o início dos desentendimentos principalmente com a elite e classe média paulistas. Muitos comícios e conversas aconteceram sem resultado.

A “gota d´água” para o conflito armado

Após isso, a população, cada vez mais descontente, iniciou protestos, manifestações e atos públicos. No dia 23 de maio de 1932, durante manifestação gigante e acalorada na Praça da República, no centro da cidade de São Paulo, quatro estudantes foram mortos por membros da Legião Revolucionária que se encontravam na sede do Partido Popular Paulista. Em sua homenagem, o movimento passou a receber o nome de suas iniciais, M.M.D.C. (saiba mais em http://blogdatesp.blogspot.com.br/2015/05/mmdc-e-avenida-23-de-maio.html). Era um movimento clandestino que oferecia treinamento militar de guerrilha aos paulistas, procurando enfrentar o governo nacional. Industriais, cafeicultores, profissionais liberais e classe média estavam unidos na oposição a Vargas. Até o Exército Brasileiro deu apoio a São Paulo no início.

A repercussão popular foi enorme, os protestos se intensificaram e no dia 9 de julho de 1932 teve início o conflito armado, proclamada por importantes lideranças políticas e militares da época.

Devido ao fato do principal motivo das manifestações serem a reivindicação de uma nova Constituição e a redemocratização, com convocação de eleições para presidente, o movimento recebeu o nome de Revolução Constitucionalista, uma das maiores lutas armadas internas no Brasil.

A data programada inicialmente para o início do conflito, dia 14 de julho, foi antecipada por um acontecimento inesperado. O general Klinger, que comandaria cinco mil homens vindos de Mato Grosso, fora demitido e afastado da carreira militar. E foi assim que, na noite de 9 de julho, as tropas da Força Pública de São Paulo (a atual Polícia Militar) invadiram estações ferroviárias e instalações públicas com o prédio dos Correios, assumindo o comando revolucionário.

Capa de revista antiga mostra imagem de
cartaz convocando os paulistas às armas
A Revolução

Apesar da união entre os paulistas crescer rapidamente, em poucos dias São Paulo foi traída. Os estados mais importantes na época haviam se posicionado favoráveis à Revolução, como o Rio Grande do Sul, mas interventor acabou apoiando Vargas. Minas Gerais inicialmente declarou-se neutra, porém cedeu seu território de grande fronteira com São Paulo para posicionamento das tropas federais.

O general Klinger, mesmo afastado, veio então para São Paulo auxiliar no comando das tropas. A Revolução ganhou mais força humana com apoio de parte da população do sul de Minas Gerais bem como de um batalhão de cerca 450 homens do Rio Grande do Sul liderado por Borges de Medeiros.

Com a ajuda dos meios de comunicação em massa o movimento ganhou apoio popular pelo ideal de lutar pela liberdade e mobilizou estimados 35 mil homens. Outros números também são fornecidos e não se sabe ao certo o total de combatentes ou de baixas, de ambos os lados.

Brilharam figuras públicas importantes com o jornalista Cesar Ladeira, o poeta Mario de Andrade e o orador Ibrahim Nobre, que não mediram esforços e motivação para estimular a população a participar da importante luta.

Getúlio Vargas tentou defender-se fechando o porto de Santos e isolando São Paulo também pelas fronteiras terrestres, mas São Paulo estava cada vez mais confiante e motivado por seu ideal. As convocações à sociedade por meio de cartazes, comícios, correspondências etc deram resultado e logo houve amplo apoio da população do estado com um grande número de civis ingressando espontaneamente no corpo de infantaria.

O isolamento imposto a São Paulo levou a dificuldades em curto prazo e que foram sendo contornadas uma a uma. Nada mais conseguia entrar no estado, como alimentos e armamentos, e seu pouco estoque e rápido esgotamento levaram a sociedade a uniu-se em um esforço para doar recursos do próprio bolso para a guerra. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo incumbiu as empresas brasileiras de fabricar armamento militar como fuzis e granadas. Voluntários levaram suas armas pessoais, e engenheiros passaram a desenvolver armamentos a serem produzidos pelo próprio estado para suprir as tropas.

Os paulistas passaram a se organizar em movimentos civis como a Legião Negra, o Batalhão Universitário da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, o Batalhão Esportivo e até o Batalhão do Bispo de Botucatu. Organizações ajudavam nas inscrições de voluntários civis, que foram milhares.

Importantíssima foi a participação das mulheres que, pela primeira vez, pegavam em armas ou, em sua maioria, cumpriam o papel de abandonar os afazeres do lar para atuar nos hospitais, nas oficinas de produção de fardamentos e na produção das refeições para os soldados oferecidas nas “casas do soldado” que estavam espalhadas por todo o estado.

Todo o estado, unido, trabalhava com garra para a vitória da causa paulista, que na verdade favoreceria o país todo.

Em agosto ocorreu a emocionante campanha “Ouro para o bem de São Paulo”. Milhares de pessoas de todas as classes sociais doaram pratarias, jóias de ouro, alianças e outros objetos de valor que possuíssem para conseguir mais recursos financeiros. É relatado que só na primeira semana de campanha 10 mil pessoas fizeram doações na capital paulista.

Foto da mesma revista, O Mundo Ilustrado, de 1957
O movimento armado

Os planos paulistas previam um rápido e fulminante movimento em direção ao Rio de Janeiro, capital do Brasil na época, para destituir Vargas no palácio presidencial. Iriam pelo Vale do Paraíba, com a retaguarda assegurada pelo apoio que seria dado pelos outros estados, fato que não ocorreu.

Para ter uma breve ideia, o movimento armado foi organizado em seis frentes de combate que se posicionaram da seguinte forma:

Nas divisas de São Paulo com Minas Gerais Frente (Leste Paulista); na divisa com o Paraná (Frente Sul Paulista); na divisa com Mato Grosso (Frente Oeste, região de Porto Murtinho), Frente do Rio Grande do Sul (cujo batalhão tentava impedir a subida das tropas de Vargas); Centro Paulista (região de Botucatu) e frente do Vale do Paraíba (Frente Norte), cujos combates mais importantes ocorreram no famoso Túnel da Mantiqueira, ponto militar estratégico entre São Paulo e Minas Gerais.

Soldados com farda cáqui,capacete e bandeira paulista como usados em 1932
Mas, com o isolamento dado a São Paulo pelo cerco militar, as tropas federais mais numerosas e bem-equipadas foram ganhando posições e forçando os revolucionários a recuarem.

A força aérea merece uma explicação à parte, devido à imensa desvantagem dos paulistas, com apenas 9 aviões munidos com metralhadoras manuais, os chamados gaviões de penacho” contra a grande esquadrilha de “vermelhinhos” de Getúlio Vargas, com aviões modernos, ágeis e equipados com metralhadoras automáticas.

O fim do combate e os objetivos alcançados

Mais de 35 mil paulistas lutaram contra 100 mil soldados de Getúlio Vargas.

Com muitas baixas, poder bélico desgastado e cercados em São Paulo, a liderança das tropas revolucionárias paulistas se rendeu em 2 de outubro do mesmo ano, após 84 dias de heroicos combates.

É relatado que oficialmente morreram 634 soldados paulistas durante o combate, embora se saiba que houve mais baixas. Do lado federal nunca foram liberadas estimativas de mortos e feridos.

Os 77 líderes constitucionalistas foram presos e muito exilados em Portugal.

A derrota militar, contudo, foi uma imensa e honrosa vitória moral e política. Getúlio Vargas, percebendo o valor dos paulistas e necessitando do apoio do estado, acabou convocando eleições para elaboração de uma Assembléia Constituinte, realizado assim um dos objetivos da Revolução e iniciado um processo de redemocratização que culminou com a promulgação da Constituição do Brasil em 1934.
Armando Sales de Oliveira, um paulista civil, foi nomeado para interventor de São Paulo após o término da Revolução.

O feriado

Foi a primeira grande revolta contra o governo de Getúlio Vargas e o último grande conflito armado ocorrido no país. É um capítulo importante da história de São Paulo e do Brasil que anualmente é recordado e comemorado em todo o estado no dia 9 de julho desde 1997 após a lei federal n.º 9.093, de 12 de setembro de 1995 sancionada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso que definiu que a data magna de cada Estado da nação fosse transformada em feriado civil.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Paris-Belfort e Cesar Ladeira, hino e voz da Revolução Constitucionalista de 1932

Durante o período da Revolução Constitucionalista de 1932, a chamada “guerra paulista”, a Radio Record de São Paulo, solidária e engajada com a causa revolucionária, atuou como instrumento de propaganda e transmitia diariamente informações sobre o combate, com a marcha Paris-Belfort servindo de fundo.

Recordando que naquela época o rádio era o único meio rápido de comunicação de massa, as mensagens eram muito aguardadas pela população paulista, que tinha, na maioria, alguns de seus familiares em campo de batalha, bem como pelo país todo para se atualizar.

Ao som da marcha Paris-Belfort foi noticiado o falecimento dos quatro primeiros heróis constitucionalistas: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (MMDC).
Durante todo o período da Revolução Constitucionalista, no horário das 2 às 4 horas da madrugada, notícias sobre o desenvolvimento da revolução e mensagens de civismo, com aclamação do espírito patriota conseguiam contornar a censura de Vargas e chegar aos lares paulistas.

Ajudando a formar o ambiente revolucionário diversos hinos foram compostos, bem como outros hinos da revolução de 1930 eram também executados. Mas foi a reprodução diária na rádio Record da marcha francesa “Paris-Belfort”, de autoria de Antonin Xavier Farigoul, emoldurando as locuções de Cesar Ladeira que a consagrou como o “Hino da Revolução Constitucionalista de 32”.

Assim também, Cesar Ladeira ficou eternizado como “A Voz da Revolução”, e a rádio Record, como “A Voz de São Paulo”.

Seguramente você conhece a bela melodia, apenas pode não saber sua história. Segue um bom link para ouvi-la.

https://www.youtube.com/watch?v=yqsElkNZOok

Até hoje, nos desfiles e outras solenidades comemorativas da Revolução de 1932 sempre toca a marcha Paris-Belfort, que ganhou letra do poeta Guilherme de Almeida, o “Poeta da Revolução”, e que apresento a seguir.

Paris -Belfort

Nove de Julho é a luz da Pátria
Data mortal deste berço augusto
Dos bandeirantes denodados
Deste São Paulo vanguardeiro e justo

Nove de Julho é a Glória do Brasil
Cantado por São Paulo sob um lindo céu de anil

Nove de Julho é a luz da Pátria
Data mortal deste berço augusto
Dos bandeirantes denodados
Deste São Paulo vanguardeiro e justo

Nove de Julho heróica e bela data
Marco inicial da jornada democrata
Piratininga terra do trabalho
Onde são Reis a enxada e o malho

Pá pa ra ra pa pa ra pa rara ra ra pa pa ra pa Ra

Seu povo altivo vai espalhando
Amor pela pátria e vai cantando
Solo querido terra amorosa
Pátria de bravos sempre formosa


Você pode também acompanhar o vídeo com a letra em http://www.youtube.com/watch?v=awEEQoq735I&NR=1

Um pouco sobre Cesar Ladeira

César Rocha Brito Ladeira nasceu na cidade paulista de Campinas, mudando-se para São Paulo aos 18 anos para estudar direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Abandonou, contudo, os estudos e foi trabalhar como redator no jornal O Diário de São Paulo.
Em 1931 tornou-se locutor da Rádio Record de São Paulo, quando se celebrizou com as personalizadas transmissões em favor da Revolução Constitucionalista.

Naquela época o jornalismo ainda era uma profissão de caráter amadorístico e de futuro incerto e as transmissões radiofônicas eram imperfeitas, porém, César Ladeira adquiriu um estilo próprio inspirado em profissionais do exterior.

Com seu tom de voz grave tinha entonação própria, dicção clara e solene ressaltando as letras “r” e “s” para melhor entendimento de suas palavras, somada ao emotivo envolvimento com a Revolução, transformaram-no num ícone do rádio e fizeram que ele se tornasse “A Voz da Revolução de 1932″.

Era uma época que não existia televisão e o rádio era o principal meio para levar as notícias do campo de batalha até a população. De sua voz marcante as notícias do campo de batalha eram levadas aos lares das famílias paulistas, que costumavam reunir-se ao redor do rádio.

Com a derrota militar e término da Revolução Constitucionalista, Cesar Ladeira foi preso durante 16 dias num presídio no bairro paulista do Paraíso e por intervenção do embaixador José Carlos de Macedo Soares não foi deportado. Nesse período no presídio aproveitou para começar a escrever um livro, como que o primeiro manual dedicado ao rádio no País, chamado ”Acabaram de ouvir”. O raro livro explicava o que era o rádio, como o radialista deveria lidar com o microfone, falava sobre o ambiente nos estúdios e sobre o cotidiano das pessoas com seus rádios.

Em 1933 Ladeira mudou-se para o Rio de Janeiro, sendo contratado como locutor e diretor artístico pela Rádio Mayrinque Veiga e depois pela Radio Nacional do Rio de Janeiro, onde permaneceu longo tempo.

Faleceu em 8 de setembro de 1969, aos 58 anos, vítima de um acidente vascular cerebral.

Seu envolvimento com o ideal constitucionalista de 32 permaneceu, e Cesar Ladeira chegou a gravar um disco LP, com oito faixas dedicadas a poesias sobre São Paulo de 32, escrevendo uma bela crônica chamada “25 anos depois”. Este disco intitulado “São Paulo de 32”, devido à sua importância histórica, está disponível para download gratuito na internet.



quarta-feira, 24 de junho de 2015

Ponto turístico de São Paulo, feira da Praça Benedito Calixto tem realejo para receber os visitantes

Todos os sábados, das 9 às 19 horas, desde o ano de 1987, há uma feira especial na cidade. É a Feira de Artes, Cultura e Lazer da Praça Benedito Calixto, no bairro de Pinheiros, distrito do Jardim Paulista, conhecida como uma das melhores feiras de antiguidades e artesanato do Brasil. 

O nome da praça é homenagem a um grande artista plástico brasileiro do início do século XX, Benedito Calixto de Jesus.
Era pintor, retratista, professor e historiador. Foi a Paris com uma bolsa de estudos e retornou em 1884 trazendo um equipamento fotográfico que o tornou pioneiro no Brasil na arte de pintar a partir de fotografias.

Todas as semanas a arborizada praça fica repleta de barracas de mais de 300 expositores e visitantes, que calmante passeiam admirando arte, belos objetos de decoração, cultura de várias formas, e aproveitando a praça da alimentação. Há também um pequeno playground na praça, para alegria dos menores.

Chegando à Praça. Placa de identificação do local.

Visitantes observando as barracas da Feira da Benedito Calixto

Peças de vidro produzidas orgulhosamente pelo proprietário da barraca

Na Feira você encontra desde selos e moedas antigas a discos de vinil, brinquedo da infância, roupas novas e semi-novas, muita louça e prataria, e até uma barraca de militarismo, que infelizmente foi a primeira que fechou no dia em que fui e cujo proprietário, que consegui encontrar, não pode me auxiliar na aquisição de objetos da Revolução de 32, mesmo estando a menos de 15 dias da sua data comemorativa.

Alguns projetos artísticos também acontecem por lá e você pode pesquisar as datas e horários de cada um.

Muitos chapéus para muitas imaginações

Arte para alegrar

Barraca de artesanato

Barraca muito procurada
Barraca com belas máscaras 

Olha aí nosso futebol
Comercialização de selos, moedas e outros produtos
Bela construção. Compras e um lanche.

Rua movimentada e sacolinhas nas mãos dos visitantes

 É um local bastante conhecido pelos paulistanos e referência para turistas, mas quero chamar a atenção para um detalhe, e bastante raro, que há por lá. É o realejo. Os mais velhos seguramente recordam de sua musiquinha com som que lembra o de uma flauta e da expectativa de saber sua sorte, porem, os jovens e crianças de hoje têm pouca chance de ver de perto um realejo ou mesmo de saber o que é.

Só para isso o passeio já valeria à pena. O “homem do realejo” é considerado uma das profissões em extinção, que ainda passa de pai para filho e neto.

O realejo é uma caixa musical antiga que fica apoiada em uma haste de madeira e possui um mecanismo semelhante ao das tradicionais caixinhas musicais. Tem origem européia e suas melodias programadas tocam ao girar de uma manivela pelo proprietário e chamam a atenção do público. Em cima da caixa de música há uma gaiola de madeira pintada de amarelo com uma caturrita amestrada, sobre uma gavetinha, também amarela, cheia de papéis dobrados. Esses pequenos papéis podem sem brancos ou coloridos e cada um possui mensagens de amor e esperança no futuro com frases escritas em português antigo, como originalmente. É então que ocorre a magia. O profissional abre a pequena gaveta e pede à cuturrita que escolha um desses papéis para tirar a sorte para você. A ave aponta da gaiola puxando com seu bico um deles. Em seguida o “homem do realejo” coloca o pequeno bilhete para que a ave dê algumas bicadas deixando marcado o papel e então o entrega, ainda fechado, ao destinatário. É uma tradição, uma “coisa antiga”!

E quanto custa tudo isso? R$2,00.

Cuturrita? Quem é essa ave?
A caturrita (Myiopsitta monachus), uma espécie de pequeno periquito verde, é uma ave nativa das regiões subtropical e temperada da América do Sul, sendo conhecida no Brasil por vários nomes conforme a região tais como cocota, periquito barroso ou catorra. Pertence à família Psittacidae como as cacatuas, os papagaios e as calopsitas e tem em comum com elas principalmente o formato singular do bico e a capacidade de agarrar com as patas.

Um detalhe: crítica à exposição de animais periodicamente é encontrada  porém, nas vezes que vi um realejo observei a aves calmas, não mostrando sinais de stress e com gaiolas limpas e bem sortidas de alimentos.

Realejo: a ave escolhe uma mensagem e puxa com o bico
O pequeno papel já marcado pelo bico da ave, é entregue

Vamos ler o que diz a mensagem?
Observando as marcas do bico no papel

Agora as mensagens podem ser lidas

Depois que você já aproveitou tudo o que a praça oferece é hora de passear pelo comércio que se formou no entorno dela, com muitos bares e suas mesas nas calçadas e pequenas galerias comerciais, o que estimula a permanência e convivência dos visitantes.

Algumas barracas não aguardam o anoitecer e fecham antes do horário das 19 horas. Achei uma pena pois os turistas, que são muitos, seguem firmes até o fechamento da última possibilidade de admiração de tantas propostas.


Do alto da Igreja do Calvário todo o movimento pode ser observado

Faça um passeio à praça Benedito Calixto, tome sol, observe detalhadamente as barracas, escolha uma lembrança para si e, é claro, tire a sua sorte no realejo.